Mistério na Rua da Soenga
Na Rua da Soenga (*), em Tibaldinho, foi descoberta uma galeria subterrânea de mais de 80 metros de comprimento e onde um homem caminha de pé em toda a extensão. Sabe-se onde começa e ainda não se sabe ao certo onde vai dar. Quem a fez, para que serviu? Tudo é mistério.
Interior da galeria subterrânea na Rua da Soenga, em Tibaldinho
 
 
À esquerda, o poço tal como se via logo depois de retirada a pedra que o ocultava. À direita, no fundo do poço a escada utilizada para a descida, vista do início da galeria.
 
À esquerda, Herculano Oliveira e a sua prima Fernanda sentados na "antecâmara" da galeria. À direita, ela observa o tecto da galeria.
 
No interior da galeria, da esquerda para a direita, Carla Loureiro, Rui Azevedo, Inês Fernandes, Luciana Oliveira e Marcelo Ferreira.
 
 
Tibaldinho, 11 de Agosto de 2010. Herculano Oliveira, 35 anos, está a trabalhar na ampliação da sua casa e tem necessidade de tirar do terreno uma pedra grande e larga, bem mais de um metro, que lhe estorva os planos. Tira.
 
E fica estupefacto.
 
Não era para menos. A pedra ocultava a boca de um poço, um poço que à primeira lhe pareceu sem fundo. Ao segundo olhar viu que as paredes eram de granito meio aparelhado. Ao terceiro tirou mentalmente as medidas: o buraco começava com um metro de diâmetro e parecia que seguia para baixo com a mesma largura.
 
Seguia. Ao longo de 9 metros, como pouco depois veio a verificar.
 
Passado o espanto inicial, a curiosidade aguçou. Vai daí lança uma escada no buracão, arma-se com capacete e lanterna, e desce. O coração batia um pouco apressado. Não sabia para onde ia, não imaginava o que encontraria, a mulher, Carla Loureiro, estava preocupada. Mas, mais que tudo, ele queria avançar por ali a dentro. E arriscou.
 
Chegou ao fundo do poço. O que viu deixou-o mais estupefacto e mais intrigado ainda. Viu o início de uma galeria onde podia andar de pé, e ainda sobrava espaço (o nosso explorador tem mais de 1,75 de altura), e o corpo passava à vontade. A largura, de parede a parede, dava para ele e mais um.
 
Caminhou poucos metros. Subitamente, o espaço entre paredes alargou. Teve a sensação de que tinha entrado numa saleta, ou na antecâmara daquela estranha caverna.
 
Ao olhar para as paredes, o que via? Granito. Só granito. Pedra maciça nos lados,  no chão e no tecto. Sem fendas. A caverna tinha sido escavada na rocha. Por mão humana.
 
Avançou mais uns metros. Aquilo parecia que nunca mais acabava.
 
Voltou para trás. A prioridade, agora, era contar as novidades da exploração. Mais tarde voltaria lá para ir até ao fim.
 
A intervenção da Junta de Freguesia
 
Contou à família. A mulher tinha-o visto descer no buraco e desaparecer lá no fundo. Aflita. A aflição demorou uns quinze a vinte minutos, que lhe pareceram o triplo ou o quádruplo. Não o via, não o ouvia, não sabia dele. O silêncio era o que mais a perturbava. Caiu? Afogou-se? Morreu? Tudo o que é tragédia passa pela cabeça naqueles instantes.
 
Respirou de alívio quando ele voltou cá para fora. E, claro, ficou espantada com o que o marido lhe contou. Curiosa, também. Tanto que não receou ir lá dentro. Foi. A filha, Luciana, também desceu.
 
Mais tarde Herculano Oliveira contou a descoberta ao Presidente da Junta de Freguesia, Justino Costa. A primeira reacção da Junta foi a de criar as primeiras condições para preservar aquele achado, certos de que se tratava de um património da Freguesia que merecia ser protegido. Depois procurar-se-ia saber o que era aquilo, quem tinha feito o poço e a galeria, em que data e para que efeito.
 
A expensas da Junta, a boca do poço foi tapada com uma estrutura em vidro e Herculano Oliveira assumiu o compromisso de facilitar a entrada na sua propriedade a quem queira ver a misteriosa construção por ele acidentalmente descoberta.
 
Justino Costa passou à fase seguinte. Contactou o NEUA – Núcleo de Espeleologia da Universidade de Aveiro com o objectivo de solicitar que especialistas dessa entidade se deslocassem a Tibaldinho para entrarem na galeria da Rua da Soenga, irem até ao fim e fazerem o mapeamento daquela estranha obra subterrânea.
 
A Presidente do Conselho Coordenador do NEUA, Ana Sofia Reboleira (**), aceitou prontamente o convite e ela própria integrou a equipa de quatro espeleólogos que em 21 de Junho de 2011 vieram a Tibaldinho, desceram o poço destapado por Herculano Oliveira e percorreram a galeria até um ponto onde não foi possível avançar mais, impedidos por pedra de derrocada acontecida não se sabe quando nem porquê. Acompanhou os espeleólogos o arqueólogo António Tavares, da Câmara de Mangualde.
 
Que viram estes especialistas?
 
Uma galeria de cerca de 80 metros, até onde puderam ir, toda escavada à força da mão na rocha dura. Caminha-se nela em pé e à vontade, sem necessidade de baixar a cabeça e de apertar os braços contra o corpo. Respira-se sem problemas ao longo de toda a extensão.
 
Adensou-se, então, o mistério.
 
Para quê escavar na rocha mais de 80 metros de comprido, quase 2 de altura e 1 largura?
Quantos anos terá demorado a fazer?
Quando? 100 , 200, 300 anos? Mais para trás?
Quantos homens nela trabalharam? Quem eram? De onde vieram?
Como foi picada a pedra?
Quanto terá custado a obra?
Quem teve necessidade de pagar tamanho esforço?
Onde foi despejado tanto metro cúbico e tanta tonelada de pedra? Como foi retirada? Em que vasilhame?
Porquê em Tibaldinho?
Porquê num sítio isolado de Tibaldinho, afastado da povoação, sem casas e pessoas por perto?
Escondia-se alguma coisa? Ou escondiam-se de quem?
Procurava-se alguma coisa? O quê?
Que tesouro justificaria tão grande investimento?
Quem sabia que a galeria estava a ser feita?
Porquê uma entrada a 9 metros de profundidade na vertical?
O poço, profundo, era um disfarce?
Era o acesso? Como se subia e descia?
Na época das chuvas ficava cheio?
Tinha água todo o ano?
É uma mina? No granito? Porque não cavaram o poço mais perto da nascente?
Porque foi a galeria feita a subir? Porque começa numa cota e sobe para outra mais alta?
Que há para além da parede que ruiu? Mais galeria? Até onde?
A derrocada foi provocada por quê?
Quando foi tapada a boca do poço?
Porque deixou de servir, ele e a galeria?
 
Etc. Etc. Tudo sem resposta. É grande o mistério na Rua da Soenga.
 
 
Notas:
* Porquê o nome “Soenga”? O que é uma “soenga”? Ver aqui.
** Ana Sofia Reboleira (Caldas da Rainha, 1980) bióloga licenciada, mestra e doutoranda pela Universidade de Aveiro, é espeleóloga e uma referência internacional em fauna subterrânea. Até ao momento descobriu sete novas espécies de animais.
 
 
       
Os espeleólogos do NEUA - Núcleo de Espeleologia da Universidad de Aveiro preparam-se para descer o poço e percorrer a galeria subterrânea. Em primeiro plano, Ana Sofia Reboleira, chefe da equipa.
 
Início da descida. Para protecção deste património, por iniciativa da Junta de Freguesia o poço passou a estar tapado com a tampa de vidro que se vê na foto da esquerda, encostada à parede.
 
Mapeamento da galeria subterrânea, na extensão até agora descoberta, elaborado pelos espeleólogos do NEUA. São cerca de 80 metros desde a casa de Herculano Oliveira, em cima na imagem, até à casa de Jorge Costa Pereira, em baixo.
 
Na foto da esquerda, o local, no interior da galeria, a partir do qual não se pode avançar. Na foto da direita, a boca do poço tapada com a pedra que o ocultava e que lá foi recolocada para o registo fotográfico.